É tão fácil desiludirmo-nos com a música nos dias que correm. Demasiado fácil. Ligamos a televisão num Domingo à tarde, e logo somos deparados com um concerto de um Tony Carreira, estupidamente vendido como um dos grandes artistas nacionais. Premimos o botão on do rádio, e o que não falta são músicas de qualidade duvidosa, repetidas, muitas vezes sofríveis por denotarem uma falta de originalidade gritante, que nada acrescentam a um mundo que se quer colorido e povoado por melodias e harmonias ímpares.
Uma coisa é inegável: a música espelha e reflecte o gosto de uma sociedade. E se, por exemplo, hoje a MTV está inundada de um pop monótono e de um hip-hop enfadonho é porque isso dá dinheiro, é porque há público que paga para ter acesso a esses produtos. A música é um negócio, de facto. Disso não há dúvidas. Na nossa pequena mas aconchegante realidade açoriana, é impossível viver dela, mas nos grandes mercados americano e europeu há quem amontoe fortunas que nem uma vida inteira de árduo trabalho com horas extra de um cidadão comum é capaz de amealhar. Mas isto não se restringe apenas e só à música. Nem é este o âmbito desta minha reflexão. Findo este “pseudo-desabafo” acerca da música numa visão mais analítica da mesma, é importante retomar o caminho que o título nos faz querer desbravar.
Com efeito, os Dandy Warhols podem passar despercebidos à grande maioria da população. Tiveram, quiçá, a altura em que foram mais ouvidos e falados aquando do “empréstimo” de uma música sua para um anúncio da Vodafone e para uma série de televisão (“Buffy, the Vempire Slayer”), intitulada “Bohemian Like You”. Não se pode dizer que são uma banda muito conhecida. São mais os que não a conhecem do que os que a conhecem. Mas isso nunca foi um problema para eles. Sem qualquer tipo de compromissos, sem o propósito de agradar a gregos e a troianos, a russos e a americanos, sem a obrigação de ter de recorrer a fórmulas pré-estipuladas por terceiros que tentam à força injectar as suas ideias onde pensam que devem – na criatividade das próprias bandas –, este quarteto, originário de Portland, estado norte-americano de Oregon, traçou o seu caminho como bem quis. De facto, não nos estranha ouvir travessias e viagens por diferentes caminhos ao longo da sua carreira – reflectem exactamente essa autonomia e independência que os Dandy tanto prezam. Após um início de carreira claramente mais virado para o alternativo, tiveram uma fase pop, passando ainda por outra muito mais experimental e electrónica, nunca deixando as nuances de country que os acompanham desde sempre. Não quiseram seguir o rumo mais fácil da obtenção de lucro através do que é comercial e facilmente consumido pelas massas; conforme as suas experiências e vivências, conforme o seu desenvolvimento não só enquanto grupo musical mas também enquanto seres humanos, fizeram o que o coração (e o engenho) lhes ordenava. Música simples. Sem rodeios. Sem manias.
Algo desperta imediatamente a nossa atenção quando lemos o nome da banda. De facto, “The Dandy Warhols” é um jogo de palavras inspirado num dos maiores precursores do movimento pop-art americano dos anos 50: Andy Warhol. À semelhança de outros criadores que seguiram este rumo artístico, Warhol transformou símbolos de publicidade e de propaganda dos Estados Unidos da América em arte. Fez desses símbolos o tema central da sua obra plástica. É conveniente referir, a este propósito, que este não se dedicava apenas a obras deste cariz; também fora produtor de filmes e discos de música. Isto revela que Warhol tinha conhecimentos acerca dos produtos que eram capazes de manipular as massas e de as influenciar. De facto, a pop-art representava os elementos mais patentes da cultura popular a partir da segunda metade do século XX. Oponha-se, portanto, às correntes vigentes, como o abstraccionismo e o expressionismo. Os Dandy Warhols identificam-se com esta cultura. A sua designação não é inocente. E é possível percebermos isso se entrarmos mais a fundo na sua obra.
A banda sentiu a necessidade de cada canção ser extremamente – e desculpem o uso do termo na língua inglesa, mas retrata melhor a essência da ideia – “somethinged”, isto é, de serem distintas umas das outras pela sua essência própria, pelo aroma que emanam e pela sensação de bem-estar que nos fecundam. Daí haver, como já supramencionei, vários estilos num só álbum (particularizando o que considero ser “o” álbum dos Warhols) – “Thirteen Tales From Urban Bohemia”, datado de 2000. Há abordagens mais rockeiras, canções que falam sobre amor, pitadas de country ao bom estilo do faroeste americano, ritmos hipnóticos do médio oriente, sintetizadores atrevidos, um pop destemido e harmonias vocais encantadoras. Torna-se muito difícil definir os Dandy. Mas é aí que reside a sua riqueza. Eles criam a música de que precisam. Já o próprio Courtney Taylor-Taylor, vocalista, guitarrista e co-fundador da banda, o afirma: “It's not having what you want, it’s wanting what you have”.
Símbolos de uma contracultura e donos de uma identidade muito própria, os Dandy Warhols são a pop-art em versão musical. Fundiram duas esferas que estiveram sempre tão unidas mas tão separadas ao longo do tempo: a arte visual e a música. Os Dandy Warhols envolvem-nos numa suave sinestesia perfumada por doces e melódicos encantos que se eternizam nos atalhos da nossa memória.
